quarta-feira, 25 de julho de 2012


Elvira Sininho

Elvira Sininho - Cartão de Mary

Para que sejamos necessários

Na fragilidade de um momento escrito pelo tempo sem tempo,
abri estradas de sentimentos
que te deixei percorrer...
Partilhámos viagens,
segredos,
mistérios...
A tua língua percorreu o caminho dos meus abraços,
a tua ansiedade desceu à minha fragilidade
e, arrepiados,
excitados,
tocámos a mesma melodia,
saciámos a avidez dos corpos que se queriam,
em prazeres descobertos...
Quando as tuas mãos,
tocando a minha paixão,
me abriam num soluço,
eu voava
numa leveza de sentidos decifrados!
Mas, para lá do teu peito,
extinguiu-se a luz!
Escureci nesta minha noite fria...
O frio da desilusão assobia nas minhas entranhas...
As lágrimas gelam
e congelam-me a alma!
Já não estás aí,
já não és,
ou nunca foste,
aquele que no sonho eu criei!

(Goreti Dias)

 

Trago-te nas linhas das minhas mãos
cujas veias assimétricas entoam cânticos de galos
que embriagados de silêncio
bicam os meus loucos desejos molhados com o nascer da aurora.

Dissolves-te
em transparências de pura seda cravadas nas impressões digitais
que sofregamente beijas
sem respeitares nunca os sinais.

Apesar do stop,
tu avanças.
Lambes-me o céu-da-boca.
Mordes-me os lábios sedentos.
Enrolas-te na minha língua.

Encontro-te.
Desejo-te.
Afago-te.
Devoro-te!

Enterneço-te
com o feitiço das minhas mãos que te amam em alvoroço
percorrendo a auto estrada da tua pele
como se eu fosse a abelha e tu o mel
no oásis do teu corpo todo aberto ao cardume
dos meus desejos.

(Vóny Ferreira)

Eu sinto que nasci para o pecado,
se é pecado,
na Terra, amar o Amor;
anseios me atravessam, lado a lado,
numa ternura que não posso expor.

Filha de um louco amor desventurado,
trago nas veias lírico fervor,
e, se meus dias a abstinência hei dado,
amei como ninguém pode supor.

Fiz do silêncio meu constante brado,
e ao que quero costumo sempre opor o que devo,
no rumo que hei traçado.

Será maior meu gozo ou minha dor,
ante a alegria de não ter pecado e a mágoa da renúncia deste amor?!...

(Gilka Machado)

Desperta-me de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito.

É rede a tua língua
em sua teia
é vício as palavras
com que falas.

A trégua
a entrega
o disfarce.

E lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lençol que desfazes.

Desperta-me de noite
com o teu corpo
tiras-me do sono
onde resvalo.

E eu pouco a pouco
vou repelindo a noite
e tu dentro de mim
vai descobrindo vales.

(Maria Teresa Horta)

Renata Mangeon - Cartão de Hanna Brescia