domingo, 24 de julho de 2011


"Dei pra me emocionar cada vez que falo dos amigos.

Deve ser a idade, dizem que a gente fica mais sentimental.

Mas é fato: quando penso no que tenho de mais valioso, os amigos aparecem em pé de igualdade
com o resto da família.

E quando ouço pessoas dizendo que amigo, mas amigo mesmo, a gente só tem dois ou três,
empino o peito e fico até meio besta de tanto orgulho: eu tenho muito mais do que dois ou três.
São uma cambada.

Não é privilégio meu, qualquer pessoa poderia ter tantos assim,
mas quem se dedica?

Fulano é meu amigo, Sicrana é minha amiga.
É nada.
São conhecidos.
Gente que cumprimentamos na rua, falamos rapidamente numa festa,
de repente sabemos até de uma fofoca sobre eles,
mas amigos? Nem perto.
Alguns até chegaram a ser, mas não são mais por absoluta falta de cuidado de ambas as partes.

Amizade não é só empatia, é cultivo.
Exige tempo, disposição.
E o mais importante: o carinho não precisa - nem deve - vir acompanhado de um motivo.
As pessoas se falam basicamente nos aniversários, no Natal ou para pedir um favor - tem que haver alguma razão prática
ou festiva para fazer contato.

Pois para saber a diferença entre um amigo ocasional e um amigo de verdade,
basta tirar a razão de cena.
Você não precisa de uma razão.
Basta sentir a falta da pessoa.
E, estando juntos, tratarem-se bem.
Difícil exemplificar o que é tratar bem.
Se são amigos mesmo, não precisam nem falar, podem caminhar lado a lado em silêncio.
Não é preciso trocar elogios constantes, podem até pegar no pé um do outro, delicadamente.
Não é preciso manifestações constantes de carinho,
podem dizer verdades duras, às vezes elas são necessárias.

Mas há sempre algo sublime no ar entre dois amigos de verdade.
Talvez respeito seja a palavra. Afeto, certamente.
Cumplicidade? Mais do que cumplicidade.
Sintonia?
Acho que é amor.
Só mesmo amando para você confiar a ele o seu próprio inferno.
E para não invejarem as vitórias um do outro.

Por amor, você empresta suas coisas, dá o seu tempo, é honesto nas suas respostas,
cuida para não ofender, abraça causas que não são suas,
entra numas roubadas, compreende alguns sumiços - mas liga quando o sumiço é exagerado.

Tudo isso é amizade com trato.
Se amigos assim entraram na sua vida, não deixe que sumam.
Porém, a maioria das pessoas não só deixa como contribui para que os amigos evaporem.
Ignora os mecanismos de manutenção.
Acha que amizade é algo que vem pronto e que é da sua natureza ser constante,
sem precisar que a gente dê uma mãozinha.
E aí um dia abrimos a mãozinha e não conseguimos contar nos dedos nem dois amigos pra valer.
E ainda argumentamos que a solidão é um sintoma destes dias de hoje, tão emergenciais, tão individualistas.

Nada disso.
A solidão é apenas um sintoma do nosso descaso".


Martha Medeiros

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