segunda-feira, 25 de julho de 2011


Talvez não haja no universo sentimento mais profundo do que este:
Solidão interior.
Aquela solidão da alma.

A constatação fria e inegável que,
não importa o ato eu esteja cercado de coisas e pessoas,
ou o ato outras criaturas tenham contribuído com minha caminhada,
em minha consciência eu estou sempre só,
comigo mesmo.

Eis que,
em algum momento de minha existência,
minha consciência me força à transformação,
à total, profunda e sincera revisão de tudo que vinha acreditando.

Ela me faz olhar para tudo o que fiz,
construí e aprendi e,
de forma implacável,
me coloca frente à frente com tudo que sou,
de verdade, e nem sequer imaginava.

Não há fuga, não há como ou onde esconder-me.
É como se as máscaras caíssem ao mesmo tempo e eu fosse obrigado a olhar num espelho vivo e límpido,
onde estão refletidas todas as minhas verdadeiras emoções,
idéias, necessidades e tropeços.
Meus medos e carências.

E, ao me deparar com minha verdadeira essência que eu desconhecia e ignorava,
é como se algo se rompesse dentro de mim e criasse um imenso vazio,
que me engole e dei sem chão e sem teto, flutuando, em completa suspensão.
É como se eu vagasse dentro de meu próprio vazio interior.

As referências momentaneamente se confundem,
como se, o tempo todo, eu estivesse seguindo um mapa falso,
para um tesouro que idealizei, mas não existiu.

As crenças parecem diluir-se,
como se não passassem de bonecos de açúcar,
que criei apenas para me adoçar a existência,
enquanto estava ocupado sonhando acordado.

As certezas se transformam em dúvidas,
como se tudo o que eu sabia não passasse de um enredo destinado apenas a justificar
a mim mesmo.

O que fazia sentido fica pálido e borrado,
como se o meu universo fosse apenas o produto de uma imaginação fértil,
ou lembrança de um sonho vívido, ou uma alucinação.

E tudo o que tenho é apenas a mim mesmo,
em toda a minha realidade nua e crua.
Nem mais, nem menos.
Sou eu me despindo para mim, como nunca havia feito antes...

E, então, vem a dor...
A dor de perceber que, essa solidão seja apenas reflexo de uma escolha,
uma postura, uma crença equivocada.

A dor de saber que quem se afastou fui eu mesmo,
num movimento de defesa infantil e inconsciente,
numa fuga assustada por medo de sofrer,
ou de perder, ou de ser esquecido.

A dor de me dar conta de que, o tempo todo,
fugi apenas de mim mesmo e que os outros apenas respeitaram a minha fuga,
deixando-me fugir.

E a dor, às vezes, é tanta e tão grande, que faltam forças para sair do lugar,
falta energia para fazê-la parar ou mesmo olhar para ela.

Ela dói no corpo e na alma, dói por dentro e por fora, dói pesado e profundo.
Não pretendo anestesiá-la, nem ignorá-la.
Não desta vez.
Quero experimentá-la até o fim, se eu suportar.

Quero abraçá-la para que se transforme em luz,
que ainda não tive coragem de buscar para me orientar em meus caminhos.

Não quero apenas passar por ela,
mas passar com ela, caminhar, compartilhar seus segredos, conhecer sua história.
A minha história.

No entanto, eu e ela estamos no mundo.
Caminhamos com outras pessoas.

Pessoas que estão em outros momentos, que tem outras necessidades,
que só conseguem ver em mim o que já conhecem, sem conseguir, nem de leve, suspeitar do quem também sou,
e elas não conhecem e não conseguem perceber e compreender.
E nem mesmo eu conheço bem...
E não há como explicar.

Não há como colocar em palavras essa solidão que dói em meio a tanta gente,
essa solidão plena que me faz sentir único como nunca me senti,
solidão que me afasta de tudo e de todos e, ao mesmo tempo,
quer estar em meio a outros que possam, ao menos acolhê-la, como ela é.

Não há como decifrar, não há como abrir o peito e mostrar o que está acontecendo bem ali dentro, onde a dor decidiu se instalar.

Não há como mostrar o coração que dói, ao lado daquele que bate, pois só eu o sinto...
E, na nossa dor, somos cúmplices um do outro, nessa solidão que é triste, mas não é tristeza.

Essa solidão que assusta, mas não é medo, que machuca, não deixa ferida.
Uma solidão que é mais que estar sozinho, pois é solidão da alma.

Arnaldo Batista

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